ARTE, CULTURA E AUTOCONHECIMENTO PARA MELHOR QUALIDADE DE VIDA


SUBUTILIZAÇÃO DA LINGUAGEM

03/01/2014 17:36
O que fez da Turma do Xaxado, um grande fenômeno é o resgate e divulgação da 
 
cultura baiana, através de história com humor fácil que retrata a vida no campo, as suas 
 
particularidades, linguagem e organização social. Reconhecido nacionalmente, através de 
 
vários prêmios, o cartunista Antonio Cedraz já ultrapassou a marca das 2.500 tiras. Ao se 
 
observar as quadrinhas, podemos identificar a semelhança dos personagens da turma do 
 
Xaxado, com as histórias de Chico Bento, de Maurício de Souza, no entanto, a diferença é que
 
Xaxado é um caipira tipicamente nordestino.
 
Neste ponto, convidamos os leitores para uma reflexão sobre a subutilização das
 
personagens no primeiro numero de uma série sobre as histórias da Bahia, sob o título “Turma
 
do Xaxado em Pelourinho” que de agora por diante iremos concentrar este ensaio. Publicado
 
em 2005, pela editora Cedraz, o livro tem a proposta de contar a História do Pelourinho.
 
O enredo é displicente e sem qualquer atenção ao lúdico natural nas 
 
quadrinhas, já existente em outras publicações de Cedraz, que normalmente envolve o leitor
 
do início ao fim. A necessidade da leitura, para aqueles que buscam especificamente as 
 
informações ali, oferecidas pelo autor, seria o único estimulo, para o acesso ao conteúdo das 
 
quadrinhas, mas para isto, qualquer fonte bibliográfica atenderia como fonte de pesquisa.
 
Entendemos que a Turma do Xaxado deveria ter escolhido o tema Pelourinho e não a 
 
necessidade de falar do Pelourinho ter escolhido a Turma do Xaxado. Inicialmente, isto pode 
 
se apresentar de forma complexa, mas tentaremos no decorrer desta exposição deixar claro o 
 
nosso pensamento.
 
Para tal, relatamos os meios, que Antonio Cedraz buscou para incutir
 
responsabilidades a Xaxado, um caipira extremamente regional, de contar a História do 
 
Pelourinho, contextualizada pelos fatos históricos cronológicos desde o processo de 
 
colonização até os dias de hoje. Tudo tem início, numa sala de aula, após o retorno das férias 
 
com alunos arrumados convencionalmente em cadeiras e carteiras e a professora nada 
 
convencional, com suas curvas sinuosas e decote discreto, pedindo que os pequenos escrevam 
 
uma redação sobre as férias, para ser lida na sala, através de um sorteio. Nestas primeiras tiras 
 
observamos a caracterização do prólogo, onde o autor situa o leitor em relação ao espaço - 
 
tempo dos acontecimentos. Tudo acontece em 6 quadros, onde o texto é distribuído entre a 
 
professora como condutora do diálogo, interrompida por Zé Pequeno e Xaxado no quadro 3 
 
para uma piada curta, mostrando a proposta da utilização do humor, que se perde no decorrer 
 
da história. O pensamento de Marieta, a “CDF” da turma, que dá indícios de que leu um livro 
 
de Jorge amado e de Xaxado que dá a deixa para o desenrolar dos fatos: sua visita ao 
 
Pelourinho.
 
No quadro de números 7, Marieta propõe a turma sabotar o sorteio, forçando a 
 
apresentação da redação de Xaxado. Este, ao ser convocado, é liberado da leitura, para 
 
discertar livremente sobre as próprias férias. Até este momento, identificamos as 
 
características leves e bem humoradas de Cedraz, a partir daí, Xaxado passa a relatar sua 
 
viagem, completamente desvinculado do seu contexto e realidade, transformando-se num 
 
historiador, ou mais precisamente em um guia turístico mirim.
 
Dois momentos chamam a atenção, pela dualidade e oposição entre eles, primeiro 
 
o descuido do autor, ao falar do Pelourinho (lugar de castigo), tentando desmistificar a 
 
crueldade e mazelas sofridas pelos negros (quadro 33) e depois, em segundo, a critica 
 
contundente de Marieta, ao dizer simplesmente: “Naqueles tempos, onde tinha dinheiro, a 
 
igreja estava por perto!” (quadra 36), mostrando claramente o envolvimento do autor em 
 
denunciar a exploração da igreja. Este contraste entre esvaziar e instigar, nas duas quadrinhas 
 
citadas acima seria tema para outro ensaio, então voltemos à história.
 
A partir do quadro 39 o relato se torna enfadonho, como um filme monótono do 
 
cinema mudo com longas legendas, apesar dos desenhos belíssimos do Pelourinho. Outro 
 
quadro, que também chama atenção foi o relato camuflado da reforma do Centro Histórico e a 
 
omissão sobre a imposição do poder vigente na época, sobre as dezenas de famílias retiradas 
 
de forma autoritária do Pelurinho. Do quadro 63 em diante, o Pelourinho é descrito como uma 
 
cidade cinematográfica, idealizada para turista ver, sem vida própria. Tudo é mostrado como 
 
uma campanha de marketing de qualidade duvidosa e tendenciosa, principalmente quando 
 
destaca a visita de Michel Jackson e Paul Simon, como referencia para a valorização da 
 
cultura que ali existe há séculos.
 
Assim, para encerrar os quadrinhos, Marieta convida a turma para uma 
 
excursão no Pelourinho no final do ano, com a aprovação de todos. Quadros estes que 
 
recuperam o lúdico natural das tiras do autor, como se o início e o final da história fossem 
 
uma outra construção artística. Após relatarmos, a forma utilizada pelo autor para contar a 
 
historia do Pelourinho, convidamos novamente o leitor para responder as seguintes 
 
perguntas. Qual o público alvo da Turma de Xaxado em Pelurinho? Tentando responder a 
 
este questionamento, percebemos que as tiras da Turma do Xaxado na sua maioria, são 
 
direcionadas ao público infanto-juvenil, no entanto, não conseguimos identificar este alvo, 
 
nesta publicação sobre o Pelourinho. Primeiro, porque houve uma subutilização dos 
 
personagens da Turma do Xaxado: Zé Pequeno (5 balões), Marines (2), Marieta (10) e 
 
Xaxado (18) em um total de 82 quadros, onde 41 quadros estão em forma de legendas. Esta 
 
formatação apresenta-se como um contra senso com a ludícidade natural das quadrinhas e dos 
 
personagens de Antonio Cedraz. Segundo Santo Agostinho o lúdico é eminente educativo no 
 
sentido em que constitui a força impulsora de nossa curiosidade a respeito do mundo e da 
 
vida, o principio de toda descoberta e de toda criação. Para tal, seria necessário que o dialogo 
 
em balões prevalecesse significativamente entre os personagens para que o leitor sentisse a 
 
vontade ler, instigada pela curiosidade natural dos quadrinhos. Neste caso, falar de lúdico em 
 
quadrinho nos transporta a uma metalinguagem, pois quadrinhos sem lúdico seria no mínimo 
 
considerado inadequado.
 
Em segundo lugar, se são crianças efetivamente o público alvo, certamente não 
 
aceitariam a falta de verossimilhança do discurso eloqüente de Xaxado: um caipira que 
 
vive na roça. Pois, para atender a contextualização cultural do personagem, este seria mais 
 
autentico, mais criativo e muito menos técnico, como já é comum se apresentar em outras 
 
tiras de Cedraz. Identificamos então que o foco (público infanto-juvenil) e o instrumento 
 
(Turma do Xaxado) ficaram em um plano bastante inferior na lista de prioridades do autor, ou 
 
de, quem sabe, encomendou esta produção, em relação ao conteúdo a serem transmitidos.
 
A Turma do Xaxado é irreverente, ousada, autentica. Os balões nas tiras de 
 
Cedraz, são sempre recheados de surpresa e de humor, no entanto pudemos observar no livro 
 
Pelourinho, uma urgência em expor um conteúdo pragmático e descontextualizado da 
 
realidade sócio-cultural dos personagens. Há de se estranhar; um autor que possui uma linha 
 
de retratar autenticamente, costumes, tradições e linguagem do nordeste, sempre com um 
 
compromisso com desenvolvimento critica e criativo do leitor; mostrar-se em uma obra, 
 
tornando seus personagens mudos sobre um determinado assunto, pois a maioria não tem 
 
qualquer força de comunicação na história. Toda a história poderia acontecer com a presença 
 
apenas da Professora e Xaxado, diante do pequeno grau secundário que os outros personagens 
 
se apresentam. Entendemos então, que o autor confiou nos recursos técnicos e na 
 
combinatória artesanal relegando ao segundo plano a produção artística. Tomemos como 
 
exemplo Marieta, que tem como característica a inteligência e dedicação ao estudo e se 
 
mostra no enredo numa omissão perturbadora, que nos faz ansiar pela sua intervenção para 
 
interromper o discurso do autor, pois definitivamente, não parece ser Xaxado quem fala nas 
 
legendas.
 
Se o objetivo do autor era produzir uma obra, com a mesma estrutura que o 
 
Pelourinho foi concebido na sua reforma, buscando atender ao turismo em detrimento 
 
do povo e da cultura local, então este ensaio apresenta-se aqui totalmente desnecessário. 
 
Mas diante do perfil que vem mostrando nas outras tiras anteriores e até posteriores ao 
 
Pelourinho, percebemos que houve uma interferência externa obrigando o autor a trair a 
 
identidade dos seus personagens, obrigando-os a cumprir um trabalho de forma impessoal, 
 
descontextualizado e maçante para atender objetivos outros. Oxalá permita que o autor, agora, 
 
por sua vontade, resolva escrever a parte dois do Pelourinho, onde a turma do Xaxado possa 
 
visitar o centro histórico de Salvador. Mostrar-se diante do deslumbramento de pequenos 
 
caipiras certamente descreverão um Pelourinho com vida interior, com suas alegrias, suas 
 
dores e os seus conflitos, independente de seus costumes, pois as paixões humanas são eternas 
 
- eternamente as mesmas. 
 
Necessário então se faz, que obras como esta, Turma do Xaxado em Pelourinho, 
 
financiado através de programa de incentivo a cultura não caiam nos erros anteriores, de 
 
utilizar o novo para dizer o velho, utilizando-se de novas tecnologias e instrumentos sem 
 
repensar a mensagem propriamente dita, sempre priorizada a transmissão de conteúdo, 
 
desvinculado da pratica da Educação de seres humanos.

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