ARTE, CULTURA E AUTOCONHECIMENTO PARA MELHOR QUALIDADE DE VIDA
Profundidade infinita
03/01/2014 17:50
Padre Carlos estava ansioso para chegar ao seu destino. esta seria sua terceira
Paróquia, no entanto ainda estava inseguro. Os últimos acontecimentos na paróquia
de São Marcos o havia deixado bastante constrangido, teria que tomar mais cuidado
da próxima vez.
A proporção que o ônibus ia se aproximando do terminal rodoviário, seu coração
disparava como o de um adolescente. Será que viria alguém para esperá-lo? Não. Não
havia uma só pessoa na plataforma de desembarque. Afinal o que esperava? Uma
banda de música? Pensou isso sorrindo para si mesmo. Desceu do ônibus e andou
alguns passos, observando o local, tentando imaginar onde ficaria a casa paroquial.
Desistindo do intento, resolveu perguntar a um dos poucos passageiros que descia
do transporte estacionado. O homem, que faltava a mão direita e mesmo assim
carregava várias sacolas com bastante habilidade, disparou a conversar, ignorando
completamente a pergunta feita pelo Padre Carlos. Por fim, depois de alguns infinitos
segundos, informou o óbvio: a casa paroquial ficava ao lado da Igreja matriz. Tentando
relembrar as informações de como chegar a matriz, despediu-se apressadamente do
homem branco e seguiu uma pequena e estreita rua, até se deparar com uma praça
comprida e arborizada de onde pôde avistar a igreja matriz.
Caminhou lentamente, observando os desenhos formados pelas combinações das
pedras que formavam o piso da praça. Observou os pardais nas árvores e os pombos
que voavam na torre da igreja. Porque será que os pombos gostam tanto das torres
das igrejas? Parou em frente as escadarias da matriz. Pronto, ali estava ele. Um padre
de vinte e nove anos, cheio de expectativas e medos, numa cidade desconhecida,
onde a única informação que possuía era o nome: RAVINA. A primeira vez que ouvira
esse nome correra ao dicionário e o significado dele o deixara ainda mais inseguro:
vale profundo e estreito. Por que uma cidade teria um nome com um significado
tão sinistro. E por que ele continuava achando sinistro aquele nome se ao chegar na
cidade percebera que era realmente localizada em meio a um vale? Não sabia. Sentia
que deveria recuar da sua nova missão, mas que desculpas daria a seus superiores?
Não. Não iria embora... Desta vez, não.
- Glória a deus nas altura e paz na terra aos homens por ele amado... Dizia
Pe Carlos tentando disfarças a irritação da própria voz. Faziam quatro semanas que
chegara aquele município e ainda não se acostumara com a participação daquele fiel
nas missas. Era irritante ouvi-lo rezar o pai Nosso como se fosse ele o celebrador da
liturgia. Ouvia-o consternado, pois havia decidido não interferir até conhecer melhor
aquela comunidade. E evitar situações constrangedoras. De qualquer maneira estava
com sorte. Diante de todos os receios iniciais de sua chegada, havia encontrado
tranqüilidade ao perceber que os seus novos paroquianos estavam mais interessados
em mostrar serviço diante do novo padre do que investigar sua vida particular e seu
passado.
Padre Carlos estava sentado à mesa da sacristia, onde assinava uns
certificados de batismo realizados naquela manha de domingo. Ainda teria a reunião
com a comissão de festa de São Felipe , padroeiro da cidade. Após entregar a chave
da sacristia a Dona Euvira e ouvir as queixas em relação as dificuldades de cuidar
da igreja, despediu-se sorrindo. Ela defendia a casa de Deus como se fosse sua
propriedade particular.
Já descera quase todos os degraus da matriz quando parou assustado. O sol
ofuscava-lhe a visão e ele quis crer, que estava enganado.Não podia começar a ter
visões logo agora, que as coisas estavam se normalizando. Começou a sentir náusea.
Sabia que nem o sol quente nem o estómago vazio eram o suficiente para deixá-lo
assim. Aquele homem que estava em sua frente era a última pessoa que ele gostaria
de ver no mundo e ele estava ali, invadindo novamente sua vida.
-Padre Carlos. – falou o homem com um sorriso sarcástico.
-O senhor? – Padre Carlos mal conseguia esconder o embaraço.
-Surpreso padre? A ironia estava estampada naquele rosto.
Padre Carlos tentava engolir a pouca saliva que lhe restava. Precisava ficar
calmo. Olhou para os lados tentando notar se havia alguém o observando, mas não
havia ninguém, somente o homem á sua frente.
- Então delegado trabuco, o que o traz a Ravina?
- Calma padre. Não imaginei que a minha presença o deixasse tão abalado! _
O delegado trabuco podia sentir o tremor das mãos de Padre Carlos e isso dexava-o
extremamente satisfeito. Acreditava estar na pista certa.
- engano seu delegado. Sua presença me deixa apenas curioso. –disse o padre
cheio de cautela, não podia imaginar o motivo que o trouxera a Ravina, afinal São
marcos ficava a centenas de Quilômetros de Ravina.
- relaxe meu amigo. Estou apenas de passeio. De qualquer maneira foi muito
bom te-lo encontrado.espero que esteja se dando bem na sua nova paróquia. – As
palavras saem acompanhadas de um sorriso ameaçador e trabuco sabe exatamente o
que está fazendo. - Bem, tenho que ir. Encontraremos-nos em breve.
A última frase dita por trabuco soa como badaladas de um sino dentro da
cabeça de Padre Carlos. Sai em direção a casa paroquial resistindo a tentação de
olhar para trás. Na sua mente surge milhões de pensamentos e lembranças daquele
incidente a mais de dois anos atrás. Precisava descansar... pensar no passado o deixava
esgotado.
Em são Marcos, Ligia está sentada na varanda de sua pequena casa. Seu rosto
com expressão contorcida pelas rugas conquistadas pelos seus 53 anos de idade. Seu
corpo pesado e volumoso mal cabia na cadeira de balanço. Seu olhar distante, era
traído pelas feições de alguém que não parava de juntar informações.
- Suicídio... Bando de incompetentes... Balbuciou Lígia para seus botões.
- Falou comigo querida? – perguntou Martins, o marido de Ligia que estava a
poucos metros consertando o cercado do jardim.
-han? Não... Não foi nada. Falei cá com meus botões. – não adiantava
expor seus pensamentos com o seu marido. Ele estava velho demais para
compreender. Mas, ela não. Ligia Gomes estava sempre atenta. Ela lembrava como se
fosse hoje. Era festa da paróquia de são Marcos, após a procissão,, todos se reuniram
no salão paroquial para desfrutarem das guloseimas oferecidas pela beatas. Todos
riam e brincavam, com exceção de Padre Carlos que desde o início do dia estava se
mostrando distraído e preocupado. Foi exatamente nesta festa de confraternização
que Raquel, uma saudável garota de 20 anos, caiu na frente dos fieis, numa convulsão
qu deixou a todos assustados. Ligia jamais esqueceria aquela cena. A pobre garota no
chão, debatendo-se ,os olhos arregalados, os lábios arroxeados contrastando com a
sua pele alva, suas mãos estendidas na direção de Padre Carlos enquanto o Dr.
Fernando tentava folgar as suas roupas e em poucos segundos a garota já estava
morta. Surpresa maior abateu a cidade quando foi divulgado a causa da morte:
Envenenamento. – suicício! – balbuciou novamente Lígia. Ela nunca entenderá como a
polícia de São Marcos chegara aquela conclusão. – Imagine, uma jovem de 20anos. –
Pensava isso com um sorriso no canto dos lábios carnudos. – Suicídio! – falou com
desdém. – Assassinato. Isso sim!
Em Ravina, a única coisa que preocupava era a festa de final de ano.
Ano novo vida nova. Assim também pensava Padre Carlos, depois daquela visita
inesperada do delegado trabuco, decidira esquecer definitivamente o passado. Estava
envolvido neste pensamento, quando foi interrompido por sua criada, que trazia as
correspondências do dia. Agradeceu acenando com a cabeça e passou lentamente um
a um dos envelopes. Algumas contas a pagar, alguns documentos da arquidiocese, e
dois envelopes com o carimbo da cidade de São marcos. Parecia que o passado batia-
lhe novamente à porta. Abriu o primeiro envelope e sorriu satisfeito; pela primeira vez
lembrava-se de São marcos com saudade. Era um cartão natalino cheio de mensagens
de carinho, enviado por Dona Chiquinha, uma velhinha adorável que até aquele dia
ainda não se conformara com a sua transferência para Ravina. O outro envelope não
tinha remetente e dentro dele havia apenas um pequeno cartão dizendo: Assassino. Eu
sei que foi você!
Neste mesmo momento Lígia está lendo um cartão idêntico, encontrado
dentro de um envelope na sua caixa de correspondência. Por que alguém haveria de
chamá-la de assassina? O que estava acontecendo? Quem escrevera aquele cartão?
Será que havia alguma relação com a morte de Raquel? Depois de tanto tempo! Tinha
que fazer Alguma coisa. Estava excitadíssima quando entrou na delegacia. Finalmente
estava vivendo um Drama policial: morte, suspeitos, veneno, assassinato e agora,
cartas anônimas. Isso era maravilhoso, numa cidade que quase nunca acontecia nada,
aquilo era um grande desafio para sua mente de detetive.
Delegado trabuco estava sentado em sua mesa,lendo alguns documentos
quando foi interrompido.
- Muito bem Dona Lídia...A que devo a honra de sua visita? Em que posso
ajudá-la.- fazia esforço para esconder o sorriso, pois já conhecia as aptidões e a
curiosidade daquela mulher que vivia se metendo na vida dos outros.
Lígia, percebendo o tom de zombaria do delegado, com um olhar desafiador,
mostrou-lhe prontamente o envelope que recebera.
- Hum... Sem remetentes... isso é alguma brincadeira?
- O senhor não entende? Fala espantada com a reação de pouco caso do
delegado.- É uma carta anônima!
- Um cartão, a Senhora quer dizer. Sim anônima ... eu estou vendo. O que
não entendo é porque alguém mandaria uma coisa assim para a senhora. Só pode ser
uma piada de algum moleque da redondeza. Francamente Dona Lígia... Sugiro que a
senhora pegue alguns livros de ficção na biblioteca e vá para casa. Trabuco fala isso
enquanto gentilmente tenta acompanhá-la até a porta da sua sala.
- Mas delegado... Só pode ser a Raquel. Alguém acredita que eu a matei.
-Dona Lígia.- O delegado respira fundo, segura a mulher pelos dois braços com
delicadesa. – A senhora não poderia ter matado aquela moça, porque ela mesma deu
cabo da própria vida. Suicídio entente? Já se passaram dois anos. Vá cuidar de seu
marido e do seu jardim. Esqueça!
- Como eu poderia esquecer ? eu estava lá... vi os seus olhos na hora da
morte.
- A senhora e a metade da cidade. Esqueça, já disse: volte para seus romances
policiais. Isso aqui é vida real.
- E a carta anônima? O Senhor não vai investigar? O correio! Eu estive falando
com o agente. Veja. – Fala apontando para o envelope. O carimbo é de uma agencia de
uma cidade chamada Ravina.
- E daí? –pergunta o delegado evitando demonstrar qualquer curiosidade.
-Já entendi ! O senhor não está interessado.
- Calma! Quem disse que não estou interessado? Dei-me isto. – Pega o
envelope da mão da mulher e coloca no bolso da camisa- pronto. Prometo que farei o
melhor que puder. Agora vai me prometer que não vaio bancar a detetive...Promete?
- Claro delegado! Isso é seu trabalho.- Fala como uma criança obediente.
- Ah! Não conte nada disso para ninguém, até que eu converse novamente
com a senhora, ok?
- Por mim tudo bem. – já quase saindo antes de fechar a porta. – Delegado.
- Sim dona Ligia.
-Essa cidade. Ravina. Não é onde o padre Carlos está agora?
-Acho que sim. Por que? Responde pensando como é que ela ficava sabendo
dessas coisas.
-Nada. É só curiosidade. – Saiu puxando a porta. Lígia sabia que o delegado
estava disfarçando, tentando mostrar pouco caso. Podia imaginá-lo sentado em sua
poltrona, fumando aquele charuto imenso como se fosse o dono da razão.
Era exatamente assim que trabuco estava naquele momento, soltando
fumaça para cima com os olhos pregados no teto. Aquela mulher era muito esperta,
mas ele não podia estimular sua curiosidade. Há três meses recebera na delegacia a
quinta queixa de recebimento de uma carta anônima. Agora teria que incluir o nome
de Dona Lígia na lista. O primeiro a ser ameaçado com aquela frase foi o namorado
de Raquel. Trabuco se lembra de quanto o rapaz ficara assustado naquela época,
um ano após a morte da namorada, uma carta anônima acusando-o de assassino; o
segundo a receber a carta foi o próprio pai da vítima, depois as três beatas que fizeram
os docinhos da festa em que Raquel havia morrido: Dona Lúcia, Dona Ida e Dona
Joaninha. Receberam as cartas no mesmo dia. Trabuco lembrava-se bem da confusão
que elas fizeram na delegacia. Felizmente conseguira convencê-las de que tudo aquilo
não passava de uma brincadeira de mal gosto dos moleques da paróquia que viviam a
atormentá-las.Agora não poderia mais trabalhar em segredo. Aquela mulher gorda e
sedenta de pistas, não perderia a oportunidade de bancar a detetive. Teria que voltar
a ravina como fizera antes ao tomar conhecimento das cartas que as pobres beatas
haviam recebido. Desta vez, precisava fazer o padre falar. Desta vez ele falaria.
Padre Carlos acabara de celebrar a missa e já na secretaria da igreja preparava
os proclames dos noivos que se casariam no último dia do ano. Enquanto conversava
com o casal o sacristão os interrompeu. – Padre tem um senhor na igreja que deseja
falar com o senhor.
- De que se trata?
- Não sei padre. Ele não disse. Parece ser conhecido do senhor... teve que
pedir que apagasse o charuto.
- Mande-o entrar. – Padre Carlos já sabia de quem se tratava.
- Bom dia Padre! Precisamos conversar.
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