Maracangalha é um dos quatro distritos do município São Sebastião do Passé no Estado da Bahia. Distante 63 km de Salvador, possui pouco mais que dois mil habitantes e apresenta grandes possibilidades de turismo rural. A entrada do vilarejo é muito fácil de encontrar: saindo da BR 324, subi o entroncamento de São Sebastião indo no sentido do município de Candeias, à direita, avisto uma réplica menor das duas torres da Usina Cinco Rios. Peguei essa estrada e logo pude sentir os odores misturados de mato, cana de açúcar, estrume e ar puro. Parece que estou voltando no tempo, mas um tempo que só sei de ouvir contar. À proporção que me aproximo, já posso avistar a esquerda de quem chega às duas grandes torres originais em meio às ruínas da Usina Cinco Rios.
Mais adiante avisto a praçinha Dorival Caymmi, que tem o formato de um violão, em agradecimento, suponho eu, ao músico, por ter transformado o lugar em objeto de desejo e de curiosidade de todos que ouvem sua canção. Melodia inclusive que se cantada uma única vez instala-se na memória para sempre: Eu vou pra Maracangalha, eu vou. Eu vou de chapéu de palha eu vou [...] Se Anália não quiser ir, eu vou só, eu vou só, eu vou só... - Que danação de Caymmi, ir pra Maracangalha até sem Anália, a anfitriã dos tempos dos engenhos depois não cumprir a palavra!
Depois da praça tem um arraial de casinhas simples coladas umas as outras e pintadas de cores aleatórias, aonde quem vai chegando pode ver os moradores debruçados nas suas janelas, para conferir “quem vem de cá”.
Para comprar uma carne de sertão curada, recomendo o bar e mercearia do agitador cultural Bosquinho, que vez por outra, nos recebe em sua casa com o delicioso mangaló – um tipo de feijão verde cozido com muita carne e chouriços, ou uma exótica moqueca de jibóia (cobra), com leite de coco “do coco” e camarão seco, acompanhado de uma cachaça destilada.
Encontrei lá, além dos pandeiros e cavaquinhos do Samba de Roda de Maracangalha, com sambadeiras de mãos calejadas pela lavoura de subsistência, os saxofones, liras, tubas e flautas da escola de Música que gerou a Philarmônica Lyra de Maracangalha responsável por formar meninos e meninas em música, estimulando o sonho de ganhar o mundo, apesar da insistência de alguns em colocar-lhes chapéu de palha nas cabeças para receber turistas. Há também a charanga, composta pelos músicos mais experientes da filarmônica, que anima as festas de lá e de algumas cidades vizinhas, lembrando as marchinhas de carnaval que ficaram na história.
No prédio do mercado o cheiro de fritura de peixe, de carne de sol, peixe enrolado na folha, misturado ao cheiro de feijão de mocotó impregnam as narinas e seduzem aqueles que gostam de um almoço mais apimentado acompanhado de uma “geladinha” ou de uma boa pinga.
Nas festas de calendário, a exemplo do dia 29 de junho, dia de São Pedro, santo católico e patrono de Maracangalha, o cardápio fica ainda mais variado, com o delicioso pirão de galinha de quintal, sarapatel, maniçoba, andu, mangaló e tantas delícias que são típicas do recôncavo baiano. Tudo isso acompanhado de grupos de forró, contratados pela prefeitura além do samba de roda, que sempre abre e fecha as festas oficiais do distrito, e aceita convite até para aniversário, batizado, casamento e o que quiserem comemorar com o samba no pé.
Maracangalha é assim: O amanhecer é acompanhado pelos cantos dos pássaros e o bem-te-vi anuncia a chegada de mais um dia entre os mugidos das vacas a caminho da ordenha. Ao meio dia os paralelepípedos devolvem a temperatura recebida do sol, causando uma ilusão de ótica quando olho o horizonte. Ao por do sol, o vilarejo ganha um amarelo ouro que me deixa com saudade de tudo o que vi de bom na vida. Quando peguei a estrada para sair daquela vila, assobiando a música de Caymmi, tive a certeza de que a música serve como um pacto de nunca deixar de ir “pra Maracangalha”.
