ARTE, CULTURA E AUTOCONHECIMENTO PARA MELHOR QUALIDADE DE VIDA
Modos de Produção e Circulação: Diálogos possíveis.
02/01/2012 16:07|
COLÓQUIO MODOS DE PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO CULTURAL: DIÁLOGOS POSSÍVEIS
Cátia Cristina Santana Garcez Mestranda em Crítica Cultural –UNEB Orientadora Profª Dra Carla Patrícia Santana
RESUMO: Este trabalho apresenta-se como um relato crítico do Colóquio organizado pela turma do Mestrado em Crítica Cultural como uma atividade metodológica inserida na disciplina Literatura, Cultura e Modos de Produção. Toda a carga horária da disciplina nos impulsionou a reflexão sobre os modos de produção e as vozes que foram e são silenciadas fora dos espaços acadêmicos, fazendo deste colóquio uma oportunidade para identificar na práxis o que verdadeiramente ocorre com a produção local fora dos muros da Universidade. Destacamos, então, não só os modos de produção da comunidade do agreste de Alagoinhas e municípios vizinhos, mas também identificamos em cada discurso, a carga subjetiva que existe na forma que esses produtores culturais e artistas se utilizam para fazer circular seus produtos e a relação que existe entre esta produção e as políticas públicas para a cultura.
PALAVRAS-CHAVE: Modos de Produção, literatura, política cultural, vozes silenciadas.
ABSTRACT: This work presents itself as a critical account of the colloquium organized by the class of the Master in Cultural Criticism Seen as a methodological discipline inserted in Literature, Culture and Modes of Production. All the hours of discipline prompted us to reflect on their modes of production and the voices have been silenced and are outside of academic spaces, making this conference an opportunity to identify in practice what really happens to the production site outside the walls of the University . Then highlight not only the production methods of the harsh Alagoinhas community and neighboring cities, but also identified in each speech, the subjective burden that exists in the way that these cultural producers and artists use to circulate their products and the relationship between this production and public policies for culture.
KEYWORDS: Modes of Productio, literature,cultural politics, nvoices silenciadas.
INTRODUÇÃO
Alagoinhas, município localizado no território de identidade cultural, Agreste de Alagoinhas no Estado da Bahia, com aproximadamente 105 mil habitantes é uma cidade que surgiu na década de 60. Apesar da instalação do curso de formação de professor, em 1972 e posteriormente, por volta da década de 80 a instalação do Campus II da UNEB – Universidade Estadual da Bahia, ainda se faz necessário o fortalecimento de uma relação de parceria e cooperação entre academia e comunidade estabelecendo um diálogo contínuo que possa caracterizar esta parceria entre o Campus, a gestão pública municipal e a sociedade civil organizada, tão necessária para a interação e consistência do tripé ensino, pesquisa e extensão que garantem a democratização das universidades públicas no Brasil. No entanto, não pretendemos aqui nos aprofundar nas dificuldades de gestão, de conceitos e de sustentabilidades e, sobretudo, de políticas que perpassam as relações entre universidades públicas, governos e comunidade. Apenas, apresentamos alguns aspectos introdutórios para que o leitor possa situar o Lócus em que se instalou o Colóquio Modos de Produção e Circulação Cultural, atividade de extensão complementar do componente/disciplina Literatura, Cultura e Modos de produção, do curso de Mestrado em Crítica Cultural. Este Colóquio teve como objetivo comparar criticamente as teorias estudadas em sala de aula observando como se dá, na práxis, estes modos de produção e circulação cultural[1] Da mesma forma, podemos identificar na estrutura pedagógica com que foi organizada a disciplina pelas professoras responsáveis Dra Jailma Pedreira e Dra Carla Patrícia Santana a intencionalidade de intensificar o que diz Freire (2005) sobre o distanciamento entre teoria e prática[2], oportunizando para os mestrandos a contemplação reflexiva In Loco.
COMO OCORREM OS DIÁLOGOS
O Colóquio Modos de Produção e Circulação da Cultura, organizado pela disciplina do Mestrado em Crítica Cultural - Literatura, Cultura e Modos de Produção, aconteceu no dia 10 de junho de 2010, as 14h00min horas no espaço do primeiro andar da Biblioteca Municipal de Alagoinhas, também como estratégia para encontrar caminhos de aproximação entre a academia, pesquisadores, e os produtores da região. Esta atitude de mudança do espaço físico então se apresenta não apenas como logística do evento, mas como perfil filosófico desta atividade cultural. Nela estavam presentes MC Osmar, representante do movimento de Rapp e coordenador do projeto Petrolatividade; Neide Alves representante do Grupo Inspiração Feminina, Luiza Sena, escritora; José Olívio da Casa dos Poetas, todos do município de Alagoinhas, além do escritor Marcus Rodrigues, de Salvador, e da também escritora Suely Nascimento, de São Sebastião do Passé. A articulação dos nomes para compor a mesa de oradores se deu a partir do acesso dos estudantes a representações que pudessem participar do evento com depoimento de suas produções e que pudessem falar sobre suas experiências em relação à circulação destas produções. Assim, vários sujeitos circularam por aquele espaço alternativo de debate e articulação de meios de produção e circulação da cultura, a saber: O Rapp de MC Osmar enquanto música, mas também como expressão de militância, como agente social da comunidade do bairro Pinto Aguiar de Alagoinhas. Como produto cultural exibiu o clipe musical que demonstra a articulação do artista junto a sua comunidade através do estilo musical e ainda o CD Coração Suburbano que foi comercializado pelo valor de cinco reais como estratégia de circulação do seu produto e como afirma o próprio músico, “por uma questão de sobrevivência”. O discurso de MC Osmar apresentou-se no evento com uma grande carga emocional e política, refletindo a prática de militância do artista, não só em prol do reconhecimento da cultura em Alagoinhas, mas comprometido com as questões sociais, referentes principalmente a garantia de qualidade de vida para a comunidade em que está inserido. Tanto em seu discurso quanto em sua música, podemos perceber que se funde a cultura de bairro e a midiática, entre a música local e transnacional, como afirma Cancline (2003) quando explica o processo de hibridação, onde não cabe mais os estudos das culturas anteriores, mas ao processo de como isso ocorreu e de como esse modo de produção está sendo usado como discurso revolucionário. Destacamos ainda a preocupação de Mc Osmar em combater uma economia capitalista usando a solidariedade e o trabalho coletivo, sempre preocupado com os impactos que os produtos culturais produzidos por ele, poderão causar na sociedade e principalmente que retorno estes produtos poderão trazer para a sua associação e sua comunidade[3]. Pensamentos e atitudes como a de MC Osmar apresentam em contraposição à crença de que o capitalismo é o único caminho a percorrer quando se pensa na economia, na geração de emprego e renda e principalmente na emancipação do sujeito. O pessimista de não acreditar em outras formas de economia se dá também pela falta de conhecimento sobre organizações econômicas solidárias e anticapitalistas. Estes conhecimentos são negados de forma reflexiva na maioria das escolas brasileiras, desde a educação fundamental até o ensino médio, criando um distanciamento entre a escola e comunidade, castrando desta forma, iniciativas que possibilitem alternativas econômicas emancipatórias[4]. Os doces cristalizados de caju e de jenipapo, e ainda os artesanatos confeccionados de matéria prima fornecida pela natureza (sementes, casca de coco, folhas, etc.) do grupo Inspiração Feminina, representado ali, por Neide Alves, oportunizou ao público o prazer em reconhecer e surpreender-se com a matéria prima usada, com a qualidade destes trabalhos e ainda de degustar das delícias da culinária típica das mulheres de Alagoinhas. Neide Alves, pessoa de grande empatia, tem suas compotas e artesanato expostos já em outros países além do Brasil; no entanto, foi surpreendente a constatação entre os artistas presentes que a maioria deles não se conhecia e não tinha conhecimento do trabalho desenvolvido uns dos outros, apesar de morarem na mesma cidade. A coordenadora do grupo de artesãs apresentou os mecanismos utilizados para circulação dos produtos oferecidos pela associação e a forma como se organizam para produzir o estoque necessário, suprindo assim as encomendas que não param de crescer. O dinheiro arrecadado com a venda do artesanato e iguarias produzidos por elas, as artesãs investem em material e dividem o restante com todas as participantes. Esta estrutura, que segundo o relato da artesã está crescendo, ainda não agrega um número significativo de mulheres, refletindo a descrença que a comunidade tem nesta forma de produção e geração de economia. É certo que a UNEB seria uma grande parceira destas mulheres, na utilização de experiências como estas, enquanto fontes primárias de pesquisa, identificando e traçando caminhos a percorrer enquanto mediadores do fortalecimento da economia solidária da comunidade de Alagoinhas, como ocorre, com as Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPS) onde participam professores, alunos de graduação e Pós graduação e funcionários de várias áreas de saber, filiadas a Uni trabalho voltadas para a economia do trabalho (Ferreira, 2000).
A PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DA LITERATURA
A presença da produção literária mereceu destaque pelo grande acervo marginal que circulou no evento. Vários livros foram expostos durante as atividades do Colóquio, a maioria deles produzidos de forma autônoma, e tendo como forma de escoamento graças a espaços alternativos como esse que hora relatamos. Assim identificamos a presença das seguintes edições:
Em forma e tamanho de envelope, o livro contendo três contos de título Eros Resoluto do escritor Marcus Rodrigues foi apresentado como resultado de prêmios e concursos que o escritor havia participado sendo esta uma de suas estratégias para publicação de suas obras. O autor chamou a atenção para a necessidade de o escritor primar pela qualidade nos trabalhos publicados e na necessidade de uma luta diária para fazer com que essa qualidade seja reconhecida e que possa circular, dando visibilidade ao autor. Janelas da Alma - Coletânea de Poetas Sebastianense, organizado por Cátia Garcez, autora deste artigo, numa tiragem de mil exemplares, foi uma produção trazida por Suely Nascimento contendo 55 poesias de 11 autores do município de São Sebastião do Passé. Suely Nascimento que já tem outros livros publicados foi contemplada neste título, com a publicação de cinco poesias de sua autoria. Destacou em sua fala, a importância da Editora Jornal do Povo na sua cidade e a relevância que isto foi para o reconhecimento do seu nome e das suas poesias na sua comunidade. O título traz sua impressão em papel reciclado e com código de barra para ser comercializado pelo mercado literário, apesar de sua circulação ainda acontecer através da venda diretamente das mãos da editora ou dos próprios poetas. Os livros O casamento e Te Amo Brasil, também de poesia, desta vez da escritora Luzia Sena, nos traz uma particularidade que vale a pena destacar. A autora, a todo o momento do seu discurso pareceu-nos muito mais interessada de falar sobre seu processo de superação social, sua ascensão ao meio cultural e da literatura em Alagoinhas do que da obra propriamente dita. O desejo de circulação da obra é apresentado de forma menos importante do que o de produzir, pois neste caso, a poesia se apresenta como uma forma de externar sua saga de pessoa emergente de uma sociedade que lhe negou direitos básicos como a educação formal, ausência que foi categoricamente lamentada pela autora. Apresentar-se de forma humilde, mas denunciando sempre a falta de espaços por onde circular sua poesia, referindo-se sempre a sua história de superação social como um engajamento político, como exemplo de superação para outros que percorrem caminhos como o seu, nos obriga a reconhecer as características traçados por Deleuze e Guattari(1977) sobre uma literatura menor, respaldada na reflexão política e sobretudo o valor coletivo que este “menor” exige. Os sentimentos de gratidão, satisfação e orgulho demonstrado pela poetisa, por estar participando de um evento organizado pela Universidade e ainda ter sido convidada a compor a mesa de oradores, deixam clara a necessidade das universidades eliminarem não necessariamente os muros físicos que a cercam, mas o sentido que esses muros representam para a comunidade que está fora do espaço acadêmico, principalmente representado “pela tendência, por parte da crítica[5], em alimentar a ilusão de que a mulher é um ser frágil, inferior, e que, portanto, não deve manifestar com muita paixão as suas emoções” (Paixão,1991). Por isto este Colóquio se apresenta aqui como um passo significativo para a instalação de diálogos que possibilitem “restituir o discurso seu caráter de acontecimento” (Foucault, 1970). O Colóquio teve ainda com a participação de um recital performático Generótico com poesias de temas homoeróticas representado por um varal onde as poesias eram colocadas em molduras em forma de roupas intimas e organizado pela mestranda Raphaella Oliveira. O recital generótico aconteceu como atividade paralela dentro do Colóquio, pois é uma atividade que já acontece em caráter itinerante e possui uma autonomia na sua trajetória. Foi inserido na programação como mais uma forma de produção e circulação cultural, o que talvez não tenha chegado à compreensão de todos, devido à simultaneidade das atividades e o curto tempo para uma programação intensa, dividindo o público entre as atividades culturais.
DIÁLOGOS POSSÍVEIS
O evento superou todas as expectativas, pois conseguiu atrair diretores de escolas públicas, professores, alunos, músicos, entre outros que contribuíram com falas de construção representadas pelas problemáticas dos temas abordados pelo evento. Percebeu-se então, pelo discurso dos próprios relatos de representantes, que não há um diálogo entre os produtores e, sobretudo, entre as produções em Alagoinhas e a instituição de ensino de um modo geral. Pode-se perceber também que pessoas, ali na própria mesa instalada, não se conheciam ou sequer conheciam as produções dos seus conterrâneos, quiçá da região. O colóquio veio então possibilitar também, de forma bastante oportuna naquele momento, uma articulação entre os produtores de cultura e um desejo de conhecer o que o outro produz, implantando mesmo que indiretamente a vontade de uma comunicação em rede entre os produtores e seus produtos. Importante também foi o relato de uma professora de história que estava presente na plenária. Na sua fala, admitiu o preconceito com o rapp e sua impotência em lidar com esta linguagem na escola e na sala de aula. Reconheceu ainda, que seus alunos apreciam o estilo musical, mas que este diálogo entre a escola e as várias linguagens artísticas, ainda não encontraram meios de diálogos que possam fluir e fortalecer tanto a escola quanto a cultura local. Desta forma podemos perceber o desejo desta professora de dialogar com uma forma de expressão que, apesar de ter preconceitos, o reconhece como possível instrumento para o processo de ensino aprendizagem e ainda, as possibilidades sinalizadas para que os artistas locais utilizem a escola como meio de circulação de sua arte e escoamento de sua produção. Percebeu-se então, um grande despreparo empreendedor em contraste com o intenso e até visceral engajamento social desses artistas e produtores culturais. O foco está muito mais na produção do que na circulação de seus produtos. Apontando que as possibilidades de produção estão mais acessíveis pela articulação de atividades coletivas, como ocorre com as atividades da Casa dos Poetas de Alagoinhas.[6] É fato que existe um contentamento em produzir a poesia, como um produto contemplativo em si mesmo: “Não há lugar, aqui, para distinguir o produzir de seu produto” (Deleuze, Guattari,1976.p.21) como se, por si só, bastasse a produção. Desta forma entendemos que a necessidade de formação e capacitação desses sujeitos no que diz respeito à importância da economia solidária e de como essa forma de pensar economia se faz possível, quando se reconhece na economia capitalista os meios de centralização de riquezas e a exclusão social destes mesmos agentes culturais e artistas. Apesar de percebermos na fala dos componentes da mesa do referido Colóquio que existe o reconhecimento da necessidade de circulação de seus produtos culturais, não percebemos um discurso de mobilização para tal. O desejo de produzir nesses artistas apresenta-se como práticas do seu cotidiano, considerando “que os homens e as mulheres fazem parte da máquina, não somente em seu trabalho, mas ainda em suas atividades adjacentes, em seu repouso, em seus amores, em seus protestos, suas indagações, etc.” (Ídem, 1977. p.118) Ao representante do Conselho Municipal de Cultura, Christopher Moura, coube destacar o processo de transição das políticas culturais do Estado a partir do governo Lula, de 2003 a 2010, fortalecida na Bahia a partir de 2007 com o governo de Jaques Wagner. Destacou as políticas de editais[7] que, segundo o conselheiro municipal de cultura, possibilitam a descentralização de recurso da cultura, mas, no entanto, se apresenta, no nosso entendimento como uma intervenção do Estado e Governo Federal para equilibrar os desajustes provocados pela concentração de capital.[8] Apresentou ainda a importância da implantação do Conselho de Cultura, mas lamentou as dificuldades que enfrenta para o efetivo exercício de mediação entre poder público e sociedade civil. A instalação dos conselhos ainda se apresenta como uma grande novidade nos municípios baianos. Estes, apesar de estar, na sua maioria, inseridos no Sistema Nacional de Cultura, que condiciona aos municípios a instalação e funcionamento dos Conselhos Municipais de Cultura. No entanto, a criação dos conselhos de cultura acontece a passos lentos, pois faz-se necessária uma mobilização dentro dos próprios municípios, para que a sociedade se aproprie e compreenda as possibilidades de articulação desta instância social de representação da democracia, pois “ Na prática social, sistemas técnicos e sistemas políticos se confundem e é por meio das combinações então possíveis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a história e a geografia se fazem e refazem continuamente”(Santos, 2000, p.142). Outro agravante é a escassez de produtores qualificados que atuem no interior do estado respaldado no “compromisso ético e político com a cultura e a sociedade” (RUBIM, 2005, p.29). A criação de cursos para a formação desses artistas e gestores de cultura para que possam escrever[9] projetos culturais que atendam as demandas como as relatadas neste artigo, seriam de grande importância para a região. No entanto, não se trata de pinceladas sobre produção cultural. É necessário a criação de cursos na Bahia, a nível de graduação, que fundamentem a prática dos agentes culturais, fazendo da educação mais um “instrumento social dos discursos” (Foucault, 2004), pois os sujeitos, como os citados e citadas neste artigo, já compreendem a cultura respaldada numa economia solidária.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que falta então a estes produtores culturais, se já produzem? A formação técnica que possibilite a compreensão dos instrumentos que compõem as etapas de produção e circulação na economia da cultura, ou o assessoramento de pessoas capacitadas que possam fazer seu modo de produção circular de forma mais expansiva e que venha fortalecer a coletividade.[10] Esse é mais um diálogo possível entre a comunidade e os campos das universidades que convivem e interagem pelo crescimento coletivo. Para concluir, fica um questionamento que poderá instigar os próximos colóquios ou outros tipos de eventos que possibilitem o diálogo eloqüente entre sujeitos: Qual o próximo passo para que este diálogo entre comunidade e universidade se torne mais estreito no sentido de proximidade e qualidade? Diante de tantos subsídios contextuais que este colóquio pode fornecer, percebe-se que a carência de dialogo entre silenciados e acadêmicos será um tema para ainda muitos eventos futuros. Isto porque não basta constatar a crise, identificar os instrumentos utilizados para silenciar minoria. Faz-se necessário apontar caminhos, estabelecer espaços para que todos falem e possam usufruir desse direito à fala, fortalecendo os meios de produção e possibilitando uma circulação ao menos sem as resistências de uma concepção de hierarquias entre o erudito e o popular, aproximando o discurso e a práxis de forma a valorizar a cultura e principalmente os seres humanos.
REFERÊNCIAS
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[1] A observação desta práxis se sustenta pelo desejo dos produtores do Colóquio, como subsídio para uma crítica cultural respaldada pelos conceitos de Karl Marx como atividade de transformação das circunstâncias. (LUKÁCS, 2003)
[2] Freire afirma “O que nos aparece indiscutível é que,se pretendemos a libertação dos homens não podemos começar por aliená-lo ou mantê-los alienados.A libertação autentica, que é a humanização em processo,não é uma coisa que se deposita nos homens.(...) É práxis, que implica a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo”.(FREIRE,2005, p.77).
[3] No artigo Trabalho Imaterial, produção cultural colaborativa e economia da dádiva de Lima e outros autores interrogam sobre as possibilidades de criação de novas saídas para a liberdade do sistema capitalista a partir das solidariedades como a que percebemos nos discursos deste colóquio: “Como, no lugar de sofre as mudanças tecnológicas, as economias do tempo de trabalho e as intermitências do emprego precário, é possível delas apossar-se coletivamente, delas conquistar a iniciativa e o controle, voltá-las contras as estratégias do capital para fazer surgir novas liberdades possíveis”?(LIMA, 2009, p.159). [4] Apontamos como exemplo as cooperativas que convivem muito bem com o sistema de mercado (Santos,2005). [5] Paixão refere-se à Crítica Cultural em relação a condescendência em relação a literatura feminina tida como um literatura menos - considerada.(PAIXÃO,1991,p.172-173). [6] A Casa de Poetas de Alagoinhas é uma associação engajada no fortalecimento dos poetas e poetisas, focada na captação de recurso para publicações de livros impressos e circulação através de recitais e mostras na região do Agreste de Alagoinhas e Litoral Norte. [7] Rubim alerta para os limites dessa política de editais, pois “A revisão ainda não aplicada consistentemente das leis de incentivo demonstra os limites da atuação (do governo Lula) neste campo”(RUBIM,2008, p.69). [8] Teixeira alerta que o mais importante é criar as condições necessárias para a emancipação política numa interação contínua com a sociedade, para não confundir as ações (como as políticas dos editais) como uma concessão do Estado.(TEIXEIRA,1997, p.179-209). [9] Os artistas, músicos, escritores, mobilizadores da cultura popular, já possuem e executam projetos de forma precária por não terem a formação necessária para a produção e captação de recursos oferecidos pela atual política de editais, isto pode ser identificado pelos baixos índices de projetos inscritos por proponentes do interior do Estado nos editais da FUNCEB- Fundação Cultural do estado da Bahia. [10] Rodrigues e Santos chama a atenção para as possibilidades de iniciativas anticapitalistas, pois “ O que se pretende, então, é centrar a atenção simultaneamente na viabilidade e no potencial emancipatório das múltiplas alternativas que tem sido formuladas e praticadas um pouco por todo o mundo e que representam formas de organização econômica baseadas na igualdade na solidariedade e na proteção do meio ambiente ( SANTOS, 2005, p.25). |
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