ARTE, CULTURA E AUTOCONHECIMENTO PARA MELHOR QUALIDADE DE VIDA
Jesus não tem dono
03/01/2014 17:37
O que iremos ressaltar dos fatos ocorridos em relação à proibição da Prefeita
quanto à realização do Espetáculo Teatral da Paixão de Cristo não é a postura da Igreja
em querer censurar a arte ou estimular a perseguição e exclusão dos diferentes, pois
isso ela sempre fez. Nem tão pouco, a postura equivocada da Exma Senhora Professora
Tânia Portugal, cedendo às exigências da igreja. Todos sabem que o espetáculo foi
apresentado em duas sessões, na quarta e quinta santa , na praça da cultura. Quem teve o
desprendimento e deu- nos o direito de defesa, pode observar o elenco dando uma prova
de talento e técnica de interpretação sem no entanto constatar nenhuma atitude que
desrespeitasse o Filho de Deus.
E é isto que quero registrar! Jovens, filhos de pessoas na sua maioria
católicas, com formação católica, alguns dizimistas, financiadores inclusive das férias
tiradas anualmente pelos padres que por aqui passam, não estiveram em momento
algum pensando em representar através do teatro a angustia de vários fieis da paróquia
de São Sebastião do Passé em relação à ingerência administrativa do “nosso” pároco.
Nem tão pouco estávamos nós, preocupados em relatar o índice de padres católicos
que morrem de AIDS, e muito menos representar as cenas sobre a promiscuidade
de alguns servos de Deus que volta e meia são divulgadas pela imprensa. Não. Não
estávamos interessados em diminuir ou sobrepujar a madre igreja e seus mentores
perfeitos, heteros e castos. “Nem todo aquele que diz : Senhor, senhor, entrará no reino
dos céus” (Mt 7.21)
Queríamos apenas contar através do teatro a história da morte de Jesus Cristo,
e junto a essa história, relatar os milagres, como o fizemos, para ratificar a divindade
existente em Jesus. Queríamos através da nossa arte atrair pessoas , não determinados
católicos, pois estes já estão salvos, mas os jovens que transitam pelas praças no período
da páscoa sem nem saber o significado. Pretendíamos dá uma dimensão da idéia da
páscoa que transcendesse as paredes de qualquer igreja ou templo. E a arte e a cultura
seria nosso instrumento para alcançar este intento. Mesmo assim, mais de 600 pessoas
assistiram ao espetáculo e puderam através do nosso trabalho, repensar sobre esta
páscoa capitalista iniciada há séculos atrás, pela própria igreja, quando negociava a
salvação dos seus fieis acumulando bens guardados até hoje, a custa da ignorância e
miséria de milhares de pessoas.
Tenho o direito de escrever estas linhas, assim como o padre teve o direito
de usar o microfone na missa do lava-pé para falar equivocadamente sobre o nosso
espetáculo. “Não julgueis e não sereis julgados” (Mt 7.1). Quanto a uma mulher
representar Jesus, estou certa que é uma honra pra Jesus. Quanto a esta atriz, excelente
atriz, ter características incomoda para uma sociedade excludente, homofóbica,
preconceituosa e machista, não há o que dizer . Apenas desejamos que a páscoa tenha
sido um período de reflexão, de amor, de perdão e principalmente de acolhimento
a todos os irmãos “porque é do coração que provém os maus pensamentos, os
homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos e as calúnias.”
(Mt. 15.18).
Necessário então se faz agradecer a Deus, pela oportunidade que todos nós
tivemos de através desta experiência, expurgar nossos medos, pesadelos, pecados,
preconceitos, conceitos de verdades inabaladas, mas que são só nossos, até porque a
maioria dos católicos de São Sebastião do Passé são íntegros, justos e apreciadores da
arte. Então tudo isso não passou de manobra de alguns que se sentem donos de Jesus. E
querendo ou não, Jesus não tem dono!
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