ARTE, CULTURA E AUTOCONHECIMENTO PARA MELHOR QUALIDADE DE VIDA


Insanidade Social

05/01/2012 16:09

 PEÇA: INSANIDADE SOCIAL

 

AUTORA: Cátia Santana

ANO: 1994

 

 

PERSONAGENS; Janice - Jovem casada

                               Daniel - Marido de Janice

                               Pedro - Pai de Janice

                               Tina - “Amiga” de Janice

 

 

Cenário: Sala de casa de Janice. Classe média

 

 

CENA I

 

(Entra em cena Janice, meio aérea, com uma blusa comprida solta até as coxas. Roda todo o cenário, lha minuciosamente os cômodos, o teto e enfim a platéia como se fosse alguém em especial.)

 

Janice - Estou deprimida, quando vejo tantos olhos, sinto que não sou nada! (prende a voz) Sinto um imenso vazio, apesar de não saber o motivo... Só porque resolvi mudar de vida pensam que estou maluca... Ficam me olhando como se eu a qualquer momento fosse pular sobre eles... (ri e balança a cabeça). Prefiro conversar com você. (aponta para o suposto espelho que na realidade é a platéia).

 

(Entra Daniel)

 

Daniel - Falando novamente com o espelho Janice?

 

Janice - Prefiro ao espelho, sempre tem tempo para ouvir, nunca reclama e é 100% honesto... Igual ao meu marido (abraça Daniel).

 

Daniel - Está bem, não está mais aqui quem falou, só não vejo graça nenhuma em ficar trancada dentro de casa falando com um espelho! Você tem que sair curtir um pouco... Sei lá... Pegar uma praia!

 

Janice - Não estou a fim de festas Daniel, afinal a vida não se resume em grandes festivais...

 

Daniel - Pare com isso Jan! Será que não percebe que nossos amigos ficam inibidos como o seu comportamento... O que você está tentando fazer, ser uma revolucionária?

 

Janice - É uma boa idéia... Mais e se eu quiser?

 

Daniel - Problema seu, mas, por favor, não conte comigo... Não nasci para grandes causas. (fala com as mãos para cima na direção da cabeça).

 

Janice - Você é um acomodado!

 

Daniel - Digamos que sim! Quando casei com você esperava ter uma vida calma e até conseguimos... Até você começar com suas crises existenciais...

 

Janice - Está arrependido?

 

Daniel - Não, mas tenho medo por você! Deveria procurar um analista... Não pode continuar se culpando pela perda do nosso filho... Você não teve culpa!

 

Janice - Eu não quero falar sobre isso, tá? E se quer saber, eu não me importo nem um pouco.

 

Daniel - Para jan! Eu sei que toda essa mudança em seu comportamento é por causa do bebê. Nós decidimos não deixá-lo nascer e depois você se arrependeu, mas já era tarde demais... Acho que fizermos a coisa certa!

 

Janice - Coisa certa? Tirar a vida do nosso próprio filho, que fizemos com tanto amor, você ainda me diz que fizemos a coisa certa!

 

Daniel - Era só um feto, e de qualquer forma você sabe que não tínhamos escolha. Você sabe que não pode levar uma gravidez até o fim!

 

Janice - Poderíamos ter tentado tá! Pelo menos isso (fala quase chorando)

 

Daniel - Tínhamos que salvar a sua vida...

 

Janice - Maravilhosa grande vida, não está vendo? E agora me responda o que é que eu faço com ela?

 

Daniel - Para começar, deveria procurar se distrair um pouco. Marquei com uns colegas para tomarmos um chope. Tá afim?

 

Janice - Não, vá você! Não tenho a mínima vontade de sair...

 

Daniel - Então minha querida, já fui (beija a testa de Janice)

 

(Janice se joga na cadeira e olha para o espelho)

 

Janice - É por isso que prefiro conversar com você. Nada está fazendo muito sentido, é tão difícil ser útil, fazer alguma coisa pelo país. A política se transformou numa grande empresa e as eleições um grande concurso público com vagas limitadas. Ninguém se candidata por ideologia, apenas procura estabilidade financeira... Rebanho de hipócritas carniceiros. (recosta-se na cadeira) Religião nem se fala: um monte de gente enfiado nas igrejas, longos padres-nossos, infinitas ave-marias... E o mundo apodrecendo de miséria. Uma esmolinha aqui, outra ali, para aliviar a consciência. No dia-a-dia estes mesmo beatos são trapaceiros, desonestos. Acendem uma vela pra Deus outra para o Diabo (levanta-se e dá uma tremenda gargalhada depois começa a chorar, para de chorar de maneira brusca) O que é que está acontecendo comigo? Porque estou chorando? Sandices! Sandices! Creio que a insanidade tomou conta de mim. Estou morrendo de fome vou pegar um sanduíche (volta devorando o sanduíche empurrando com os dedos e sorrindo) Acho que vou acabar engasgando (vê uma garrafa de bebida e vira tomando grandes goles, limpa o queixo com as costas das mãos e solta tremendas gargalhadas). Ai Cazuza como você faz falta ao país. (começa a recitar) Disparo contra o sol / sou forte sou por acaso / minha metralhadora cheia de mágoas / eu sou um cara. A tua piscina está cheia de ratos, suas idéias não correspondem aos fatos / o tempo não para / eu vejo o futuro repetir o passado / eu vejo um museu de grande novidade / mas o tempo não para, não para / não às vezes os meus dias são de par em par procurando uma agulha no palheiro / nas noites de frio é melhor nem nascer / mas de calor se escolhe: é matar ou morrer e assim nos tornamos brasileiros (dá tremendas gargalhadas) /transformam o país inteiro num porteiro, pois assim ganha mais dinheiro.

 

 

 

 

 

(Entra Daniel)

 

Daniel - O que aconteceu Jan? (olha pra garrafa de bebida) Você está bêbada! Que diabo está acontecendo com você? Parece uma desequilibrada! (enquanto isso ela canta distorcida) Estou cansada de suas loucuras!

 

Janice - Eu quero que o mundo se exploda. Buuuuuu! (faz som de explosão jogando os braços para as laterais)

 

Daniel - Vamos, vou te dar um banho, parece que bebeu toda bebida do mundo.

 

Janice - Banho não! Ai! Me larga!

 

Daniel - Vai logo sua alcoólatrazinha (fala rindo). Direto pro chuveiro. (sai com ela, apagam-se todas as luzes e quando acende ela está sentada de cabelos molhados, enrolada num cobertor e com uma xícara de café nas mãos).

 

Janice - Você é um mostro! Estou morrendo de frio, o mundo parece estar rodando e este café está uma merda. (olhando pros lados procurando) Dan?

 

Daniel - O que é (fala do fundo do palco).

 

Janice - Você está zangado comigo?

 

Daniel - Não! (fala com ironia) Claro que não! Eu adoro chegar a casa e encontrar minha esposa embriagada!

 

Janice - Porque você não conversa comigo?

 

Daniel - Conversar o que?

 

Janice - Sei lá... Qualquer coisa!

 

Daniel - (Pega a cadeira e coloca ao lado dela) Está bem, que tal falarmos de um bom analista? Você tem que reconhecer que está com sérios problemas.

 

Janice - Você está pensando que estou louca/

 

Daniel - Afinal porque tanta depressão?

 

Janice - Sei lá, são tantas coisas. Eu me sinto inútil! Queria que o mundo fosse diferente.

 

Daniel - O que tem o mundo? Você vive nele há tanto tempo e só agora você estranha?

 

Janice - O que tem o mundo? Pois bem, vou lhes dizer: Tem miséria, fome analfabetismo, hipocrisia, marginalização. Quer mais?

 

Daniel - Ora, não seja tão pessimista! Afinal nem tudo está perdido... Com as mudanças e esperanças do povo brasileiro se renova. Estamos encaminhando para um futuro melhor. Mas não existe mudança radical a curto tempo. Temos que ter calma.

 

Janice - É isso que me deixa angustiada. Nós acreditamos na justiça desse país, e ai o que acontece. Ficamos de braços cruzados esperando um milagre acontecer.

 

Daniel - Você vai ter que separar as coisas, não pode deixar os problemas sociais interferirem no seu comportamento.

 

Janice - Par! Para! Para! (fala gritando) Me irrita essa sua mania de querer me controlar, droga!

 

Daniel - Você está ficando louca. Se continuar assim eu vou largar você.

 

Janice - Pois bem, é um grande favor que você me faz, tá, pensa que me importo? Vá suma da minha vida! Sai, desapareça...

 

(Daniel dá uma bofetada em Janice, e esta vira o rosto com força jogando os cabelos para o lado com o impacto da tapa)

 

Janice - Seu groso! Eu te odeio!

 

Daniel - Desculpe querida. Eu tinha que fazer isso. Você estava histérica.

 

Janice - Você é ridículo! Frustrado, essa sua vidinha ridícula...

 

Daniel - Não precisa humilhar! Vê se não apela esta bem?

 

Janice - Humilhar? Isso tudo é um elogio pra você... Acho que estou ficando louca? Acha que pode me agredir seu idiota? Há muito tempo que não amo mais você, sabia? (fala rindo) è isso mesmo que você ouviu! Cai fora! Eu não te amo mais, aliás, eu nunca te amei!

 

Daniel - Você está maluca!

 

Janice - Não, o mundo que é insano! Você que se acostumou com a rotina. Vá embora!

 

Daniel - É isso mesmo que você quer?

 

(Janice fica de costas pra ele e Daniel sai com a cabeça baixa)

 

Janice - Quem será? Pai o que está fazendo aqui?

 

Pai - O que está acontecendo garota? Encontrei seu marido nas escadas e ele nem me cumprimentou!

 

Janice - Não liga pai! Você nem respondeu minha pergunta, o que veio fazer aqui?

 

Pai - Eu vim saber o que esta acontecendo com você?

Janice - Comigo? (ri) Comigo está tudo ótimo, ma-ra-vi-lho-so!

 

Pai - Pensei que estava doente, pois telefonei para o escritório e me disseram que você não aparece há uma semana.

 

Janice - Ah! O emprego! Eu larguei!

 

Pai - Largou? Você está louca, cinco anos numa firma e larga assim sem mais nem menos?

 

Janice - Pode ser até loucura, mas decide que vou ser uma louca feliz.

 

Pai - Feliz e dura! Vai viver de quer?

 

Janice - Está com medo de me sustentar papai? (com ironia).

 

Pai - Claro que não! Agora você tem o Daniel, que graças a Deus é equilibrado financeiramente...

 

Janice - Tinha! Esse também já foi!

 

Pai - Do que você está falando?

 

Janice - Eu estou me separando...

 

Pai - Como? Está maluca? “Um casamento de três anos acabar assim”? (ele repete) “Um casamento de três anos acabar assim”?

 

Janice - Então ela será uma enfartada. Cansei e viver em função dos outros, agora resolvi fazer só aquilo que eu gosto.

 

Pai - Mas... E Dan? Ele é seu marido!

 

Janice - Ele não será mais... Ele não será mais, entendeu?

 

Pai - Essa menina piorou de vez!

 

Janice - Não, eu apenas desisti de levar uma vida que não me trazia felicidade... E tem mais, vou largar aquela merda daquele curso...

 

Pai - Olhe, eu não vou me meter mais não me procure para chorar...

 

Janice - Eu já esperava isso de você!

 

Pai - Vê se não conta pra sua mãe, ela vai morrer de decepção!

 

Janice - Mamãe é forte. Ela irá superar...

 

Pai - Espero que saiba o que está fazendo...

 

Janice - Agora, eu sei o que quero!

 

(Entra Tina).

Tina - Ei? Que clima é esse minha gente?

 

Pai - É essa maluca! Está largando tudo!

 

Janice - Não se mete, eu já disse que não vou continuar fazendo coisas fúteis.

 

Tina - O que é isso Jan? Que cara é essa? Você estava chorando?

 

 Pai - Ela brigou com Daniel!

 

Janice - Agora eu tenho porta voz. (fala com ironia).

 

Tina - O que ouve jan? Porque essa cara?

 

Janice - Quer saber Tina? Eu tô cheia dessa nossa amizade!

 

Pai - Está vendo? Virou uma ingrata! Tanto que fazemos por ela, e isso que recebemos.

 

Janice - Ingrata! (fala com ironia) Essa é boa.

 

Tina - Por favor, seu Armando, será que o senhor poderia me deixareu conversar com Janice em particular?

 

Pai - Por mim, está ótimo! Não estou mesmo com paciência para aturar loucuras. (ironia)

(Sai pai)

 

Janice - Olha tina, eu não estou a fim de papo!

 

Tina - O que está acontecendo? Você nunca me tratou desse jeito!

 

Janice - É esse o problema! Eu sempre tratei você muito bem, e, no entanto sempre tive consciência que você nunca foi minha amiga!

 

Tina - Ora essa! Deixe de besteira mulher! Você é muito sentimental! Claro que eu sou sua amiga!

 

Janice - É? Amiga de olho no meu marido?

 

Tina - Jan! Você deve estar louca! Eu sempre tive o maior respeito por seu marido!

 

Janice - Respeito e tesão!

 

Tina - De onde você tirou essa idéia?

 

Janice - Ora Tina... Eu não sou criança! Daniel me contou de suas insinuações e principalmente sua opinião sobre mim.

 

Tina - Eu! Eu acho você maravilhosa! Sempre te admirei.

 

Janice - Eu sei! Daniel me disse: sou gorda, desajeitada e acima de tudo burra, não é?

 

Tina - Eu juro que nunca falei essas coisas.

 

(Entra Daniel e Armando).

 

Tina - Dan! Que bom que você chegou, eu acho que ouve um grande engano.

 

Daniel - Eu não estou com saco! Me deixe!

 

Janice - Eu não suporto tanta hipocrisia. (sai).

 

Pai - Que hipocrisia? Estão vendo o que eu disse? Como é que pode? (olha para Tina). Você sabia que eles vão se separar?

 

Tina - Mentira! Ah Dan... Que bom que você se livrou dessa piada! (pega Daniel pelo braço).

 

Daniel - Pare Tina! Você sabe que eu amo Janice.

 

Tina - Se ama de verdade, deveria interná-la... Ela tá ficando descontrolada...

 

Pai - Você acha que ela está fraca do juízo?

 

Daniel - Nada disso! Não vamos levar a coisa para esse lado.

 

Tinha - Vocês estão tapando o sol com a peneira. Ela precisa de ajuda psiquiátrica e tem mais, sanatório não é o fim do mundo.

 

Daniel - Eu acho exagero! Sei que ela não está bem, mas sanatório é demais.

 

Pai - Eu acho que deveríamos levá-la, e lá os médicos decidiriam o que fazer.

 

 

Tina - Ótima idéia!

 

Daniel - Vai ser um choque pra ela!

 

Tina - (Fala apoiando) Meu querido, eu vou estar sempre ao seu lado.

 

(Entra Janice, todos calam)

 

Janice - Eu acho muito bonito a preocupação de vocês. Estou comovida.

 

Pai - Do que você está falando/

 

Janice - Estou falando do sanatório, psiquiatra...

 

Daniel - Jan! Pelo amor de Deus não piore as coisas.

 

Janice - Piorar o que Daniel? (fala sério) O que pode ser pior do que ser considerada uma louca varrida?

 

Tina - Jan, não vai ser tão ruim assim! O sanatório é um lugar de repouso.

 

(Toca em Janice e esta a empurra e Tina cai)

 

Janice - Pelo menos minha frustração, não é por querer homem comprometido. Você é pequena demais para eu me importar com você!

 

Tina - (No chão) Sua histérica, você é uma frustrada. (Chora)

 

Daniel - O que é isso Jan? Você realmente esta muito amarga.

 

Pai - Minha filha é...

 

Janice - Sai! Saiam todos! Desapareçam da minha vida. Fora (empurra todo mundo a porta)

 

(Todos falam coisas ao mesmo tempo)

 

Pai - Me respeite Janice! Eu sou seu pai...

 

Daniel - Calma Tina! É melhor sairmos!

 

Tina - Ai não empurra! Sua grosa! Ai Dan ela me machucou...

 

(CARTA DE DESPEDIDA)

 

Janice - Chega! Não posso mais suportar estes conflitos; afinal, uma andorinha só não faz verão. Mais alguém tem que se sentir responsável. O ser humano chegou ao ponto que não quer mais contribuir para evolução, para o desenvolvimento do mundo. O capitalismo estragou o homem... No fundo, somos individualmente culpados por todos os problemas que nos oprime. Somos individualmente covardes... Nos comportamos cada vez mais como os elefantes, tão grandes e tão indefesos, tão medrosos.

Não quero ser modelo, nem tão pouco tento chamar atenção sobre mim, quero sim, acabar com essa vida fútil que levei até hoje... E como não me restam forças... Morrerei por medo de continuar vivendo.

Aqueles que me amam, peço que aproveitem a energia que possuem para a construção de uma sociedade digna de se viver.

Aqueles que me chamam de louca, lembre-se:

“Os elefantes não sabem a força que têm”.

Fim

 

 

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