ARTE, CULTURA E AUTOCONHECIMENTO PARA MELHOR QUALIDADE DE VIDA


CONCHITAS E TARIOBAS

31/03/2012 23:28

 

CONCHITAS E TARIOBAS

 

Cristina  Mendes[1]

Conchita morava em uma daquelas pequenas ilhas que pertencem ao Município de Salinas das Margaridas, no estado da Bahia. Naqueles lugares onde as crianças demoram de crescer, de tão aproveitada que é a infância. Filha de pescador e marisqueira cresceu acompanhando a mãe entre um bebe-fumo e outro escondido na areia da maré vazante. Gostava mesmo era da tarioba, marisco do tamanho de ostra. Não tão fácil de achar como o bebe-fumo, mas de sabor mais precioso como tudo que é difícil na vida. Quando encontrava a espécie, escondia-se de sua mãe e batia na casca do marisco com  uma pedra até que se abrisse e  comia o molusco fresco, aquecido apenas pelo calor do sol. Gostava de sentir o bicho se movendo em sua língua e deliciava-se com as cócegas que lhe proporcionava ao  senti-lo descendo pela garganta.

Apesar de  ter tido uma infância muito feliz naquela ilha, Conchita sonhava em sair Dalí. Não queria ser igual a sua mãe, mulher com pele ressecada pelo sol. Queria ir embora, mas sabia que seu pai não lhe permitiria aventuras, mesmo alegando  a necessidade de ir atrás da educação que a ilha não oferecia .

Conheceu Joaquim numa festa de Salinas, tranzaram  no  mesmo dia. Ela com 15 anos, ele com quarenta. Conchita era a mulher dos sonhos de Joaquim, e ele era exatamente a pessoa que ela esperava para tirá-la daquele lugar. Encarregado de sonda, trabalhava numa empresa que lidava com  perfuração de petróleo, tinha casa própria e nos dias de folga, alugava caiáque na praia de Cabuçu, lugar de veraneio do povo de Feira de Santana e Santo Amaro da Purificação. Conchita adorava passear de caiaque e era acostumada a fazer  travessia de uma ilha para outra, desafiando as ondas do mar.  Estava pronta para partir, seu corpo agora não era mais de menina.

Com menos de três meses foi morar com Joaquim , ignorando os choros da mãe e os presságios de agouro do pai. Fodiam todos os dias. Nos dois primeiros meses, ela escolhia a posição sempre surpreendendo o marido. Adorava dá seu rabo agachada em posição de quatro com os joelhos dobrados. Sua bunda larga e bronzeada, aberta em direção a Joaquim, fazia-o agravar seu problema de ejaculação precoce.

Saiam juntos de mãos dadas e bebiam  muita cerveja gelada pelas praias das ilhas que freqüentavam. Voltavam para casa já na madrugada, bêbados e trepavam até caírem exaustos num sono profundo.

Joaquim trabalhava embarcado durante quatorze dias e folgava vinte e um dias, ficando mais tempo em casa do que fora, mas isso incomodava muito Conchita, pois apesar da pouca ausência do marido, sentia muita falta de sexo.

Passou a deitar-se na rede da varanda de sua casa e observar os rapazes passando com suas sungas coloridas em contraste as peles bronzeadas e certamente encobrindo partes mais clareadas por falta de sol. Queria comê-los todos. Um por um.

Pensou em desistir do seu compromisso e se abriu com Joaquim em um dos seus retornos do trabalho. Sugeriu uma relação mais aberta, sem fidelidades desnecessárias e o marido aceitou com a exigência de  que quando estivesses juntos seriam só eles dois. Fechado o acordo meio verbal, meio por metáforas, muito mais por deduções subjetivas do que concretas, se amaram como no primeiro dia, como se estivessem novamente se conhecendo naquele momento. O fato é que Conchita sentiu-se livre novamente.

Dalí em diante tornou-se duas pessoas distintas. Na presença do marido assumia o papel da mulher submissa: lavava, passava, , cozinhava, recebia os amigos do casal e a família do marido. Na ausência de Joaquim quase não voltava para casa, afinal era melhor ficar longe dos olhos e dos ouvidos da sogra que morava bem ao lado de sua casa.

Não perdia uma festa de arrocha nas noites de sábado e nos domingos freqüentava os bares que tinham  pagode,  na maioria das vezes em som vindo de carros dos clientes que os freqüentavam. Normalmente bebia muita cerveja, pois o calor do verão era sempre maior que o suportável e lá pela dúzia e meia da gelada topava qualquer tipo de  sexo.

Tudo era culpa do arrocha que deixava sua calcinha sempre molhada após uma dança devidamente coreografada com um parceiro ofegante. Tranzava ali mesmo nos banheiros dos bares e muitas vezes esquecera sua calcinha pendurada no cifão da descarga do vaso sanitário. Adorava também voltar no outro dia para perguntar ao dono do bar se achara sua peça íntima.

Quando era um  proprietário, Conchita se deliciava com o tesão que seu gesto ousado provocava nos homens, comprovado por uma indisfarçável ereção sob as bermudas  de tecido fino. Queriam levá-la para o banheiro.  Nunca fora.  Preferia manter-se em suas mentes através do tesão não saciado. No entanto, quando era uma proprietária a dona do bar, Conchita preferia perder a calcinha a ter que pedi-la de volta. A única vez que tentara recuperar o símbolo de sua luxuria noturna, fora expulsa do bar e ameaçada com uma vassoura de piaçava até o final da rua. Tinha rido muito daquela situação, mas preferia não experimentá-la novamente.

Seus dias passavam assim, entrou num curso semi presencial e durante a semana estudava, dormindo na casa de colegas de turma e no final de semana saía para a noite sem destino e nem previsão de retorno. Isso começou, ela não sabia bem em qual momento, a ficar muito repetitivo, por mais aventura que encontrasse, os finais de semana já não eram tão divertidos como antes.

Naquele domingo amanhecera deprimida, sentindo um enorme vazio dentro de si. Seu marido agora trabalhava em outro estado e já não voltava para casa com  tanta freqüência. Não fodiam  mais como antigamente. Sentia-se velha aos vinte e dois anos. Saiu cedo da cama e após arrumar a cozinha resolveu que iria visitar sua mãe. Ligou para um pescador para vir apanhá-la de barco. Já não gostava mais de  navegar de caiaque. Enquanto esperava, vestiu seu biquíni minúsculo e o short tão minúsculo quanto o conjunto de duas peças. Colocou seu gato preferido dentro de uma sacola e dirigiu-se ao barco azul de listras amarelas que já a esperava na praia. Respirou fundo enquanto o condutor ligava o motor do barco. O sol já havia nascido há muito e Conchita ficava grata por senti-lo sobre a pele. Ia para casa buscar colo de mãe e talvez mariscar algumas tariobas frescas para lembrar-se da infância.



[1] Pseudônimo da autora

 

—————

Voltar